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01.fev.2019
Reforma da Previdência: liderança e narrativa – Valor, 01 de fevereiro de 2019

Após ascender de forma inesperada à liderança do partido conservador em 1975, Margaret Thatcher enfrentou, durante seus primeiros anos como líder da oposição, ceticismo sobre se era a pessoa certa para o cargo.

No pós-guerra, o Reino Unido era citado como “o homem doente da Europa”, termo pejorativo originalmente empregado em referência ao império turcootomano no século XIX e que simbolizava seu declínio econômico e geopolítico. O quadro de estagflação se deteriorou no final da década de 70 e, mesmo assim, Thatcher foi inábil em confrontar o governo trabalhista. Havia expectativa que seria substituída antes mesmo da eleição.

Porém, o inverno de 1978 e 1979 ofereceu-lhe uma oportunidade ímpar. No “inverno dos descontentes”, as negociações salariais entre o governo e os sindicatos falharam, culminando em amplas greves, provocando o colapso dos serviços públicos básicos. Thatcher compreendeu o momento político e, em transmissão de TV, ao invés de atacar seus adversários como de praxe fazia, adotou tom conciliatório, pregando a união do país. Em suas palavras finais: “devemos aprender novamente a ser uma nação, ou um dia não haverá nação”.

Suas propostas de limitar os poderes dos sindicatos visando o bem coletivo tiveram surpreendente aceitação pública e a intenção de votos dos conservadores virou de -5 para +20 pontos em comparação com os trabalhistas em poucos meses, segundo o Gallup. Após a queda do governo, as eleições de 1979 transcorreram com favoritismo dos conservadores.

Como síntese do clima político, o então primeiro-ministro trabalhista, James Callaghan, desabafou com um assessor às vésperas da votação: “a cada trinta anos vem um mar de mudanças na política… neste caso, não importa o que você diga ou faça. Há uma mudança no que o povo quer e apoia, e eu suspeito que haja tal mar agora”.

A dama de ferro foi eleita, realizou reformas antes ditas impopulares e dinamizou a economia.

Trinta anos após a promulgação da nova Constituição, o resultado das eleições sugere o desejo da população de alteração do rumo do Brasil. Nada mais compreensível. Durante este período, o desempenho econômico do país foi pífio, sendo que, entre as oito maiores economias emergentes em 1988, o Brasil teve o menor crescimento do PIB per capita. A redução da desigualdade social foi pequena e a prestação de serviços públicos segue altamente deficiente.

Não é difícil concluir. O Brasil se tornou “o homem doente” dos emergentes. A Previdência Social é causa importante deste estado de coisas. Ao mesmo tempo que o Brasil possui uma das mais baixas taxas de poupança e investimento entre os emergentes, também é um dos países em que se aposenta mais cedo e com pensões elevadas vis-à-vis os salários. Apesar da Constituição ser explícita em termos de promoção da igualdade, em seus meandros, cria diferenciações entre o regime geral e os regimes especiais que desrespeitam o bom senso. Dada a demografia brasileira, sem reforma, o quadro piorará acentuadamente.

Nos próximos dias, o novo governo decidirá entre duas opções. Poderá escolher o caminho mais seguro e propor uma reforma enxuta. Esta reforma será provavelmente aprovada sem maiores desgastes políticos e, devido à ociosidade dos fatores, a economia deverá avançar de forma moderada durante certo tempo. A outra opção é propor uma reforma ambiciosa, com desgaste político e riscos mais elevados, mas que poderá mudar as perspectivas de longo prazo do Brasil.

Existe crescente aceitação popular de que a reforma da Previdência é necessária. A última pesquisa realizada pela XP Investimentos mostra que 71% da população compreende a necessidade. Porém, quando são apresentados os pontos específicos da reforma, o nível de aprovação cai de forma relevante. Apesar de haver consciência sobre a importância da reforma, os brasileiros ainda não parecem estar majoritariamente dispostos a abrir mão de seus direitos (ou privilégios).

As reformas da década de 1980 no Reino Unido contaram com o apoio da população, pois a percepção de decadência do país aliado a uma conjuntura desfavorável encontrou uma líder que conseguiu convencer a população a superar “o equilíbrio ruim” – i.e., abrir mão de prerrogativas individuais e benefícios de curto prazo em prol do coletivo e de benefícios de longo prazo.

Neste sentido, se a opção for pelo segundo caminho, a construção de uma narrativa de fim de privilégios depende sobretudo do líder. Os primeiros sinais têm sido positivos. É imperioso que o presidente seja a voz forte que lidere o país para o equilíbrio bom. Dado seu passado de defesa corporativista, a inclusão dos militares na reforma é fundamental para que qualquer reforma ambiciosa avance.

É a percepção de que o próprio presidente está disposto a abrir mão daquilo que, historicamente, lhe é caro, o elemento que pode minar a resistência das demais corporações. Afinal, liderar é servir. E servir exige sacrifícios. A mais severa crise econômica e moral da nossa história deixou cicatrizes. O ambiente político mudou. As prioridades mudaram. Existe campo fértil para mudanças. É hora de ousar.

André Senna Duarte é economista da Truxt Investimentos

E-mail: andre.duarte@truxt.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

01.fev.2019
Brasil sob nova direção incentiva aplicação em bolsa – Valor, 01 de fevereiro de 2019

Mesmo com a forte queda das ações da Vale na última semana do mês, a bolsa foi a melhor escolha para o investidor em janeiro. Nos dois últimos pregões, o mercado ainda ganhou de presente a postura menos inclinada à alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o que assegurou um pequeno rali para ativos de risco globalmente. O Ibovespa ensaiou ontem novo recorde, ao bater 98.405 pontos na máxima do dia, mas fechou em 97.394 pontos.

Com a ideia de que a economia local seguirá a trajetória de uma recuperação cíclica, o viés dos gestores de recursos é pró-kit Brasil – o que quer dizer que veem chances de valorização adicional para as ações e para o real, enquanto juros apontam para baixo – e já há quem considere haver espaço para queda da Selic. O que ancora tal percepção é a crença de que o governo do presidente Jair Bolsonaro tem capital político para avançar na reforma da Previdência com o início dos trabalhos no Legislativo.

No primeiro mês do ano, foi o índice de dividendos da B3 que teve desempenho mais expressivo, com valorização de 12,5%, seguido pelo de ações do setor de consumo (12,3%), o imobiliário (10,4%) e pelo Ibovespa (10,8%). Euro e dólar (-5,6%) ficaram na lanterna. Entre os referenciais de renda fixa, o IMA-B5+, que reúne uma cesta de títulos públicos atrelados à inflação com prazo superior a cinco anos, com ganhos de 6,6%.

Com a lupa agora voltada para o Congresso, é a renda variável que tem mais condições de multiplicar o capital do investidor nos próximos meses, na opinião de Fernando Lovisotto, sócio da Vinci Partners. Para se ter uma ideia, o fundo de ações da casa praticamente não tem caixa e está alocado principalmente em “histórias locais, que dependam menos do crescimento global”, tendo saído de casos mais ligados à cadeia de commodities.

O executivo destaca que a qualidade do fluxo para a renda variável também melhorou. Enquanto no pós-eleição as ações se valorizaram com os recursos da pessoa física, na virada para 2019 o institucional local passou a ter presença marcante nos pregões, saindo de papéis de renda fixa como as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B, atreladas à inflação). Agora, com o Fed sinalizando ao menos juros estáveis, mais favoráveis são os ventos para os emergentes.

“Foi uma sustentação importante para a bolsa, mas todo mundo está preso às reformas”, afirma, referindo-se principalmente à revisão das regras da Previdência, que deve começar a ser discutida neste mês no Congresso.

É do andamento dessa pauta, que sinalizaria uma melhora fiscal para o país, que vai condicionar a volta do capital externo para os ativos locais. “O estrangeiro olha para Brasil dentro do conjunto dos emergentes. No ano passado mantinha um maior peso na China onde perdeu muito dinheiro.” O saldo do capital externo na B3 estava em R$ 1,06 bilhão até o dia 29.

A aposta em bolsa vai ser, porém, uma jornada de vaivéns, a exemplo do que se viu nos dois últimos anos. Nos multimercados da Vinci, a casa também aumentou a exposição a ações e Lovisotto diz ver nos bastidores movimentação de fundos de pensão para selecionar gestores de renda variável. Com a Selic a 6,5% ao ano, mais difícil é a tarefa desses institucionais de cumprir metas atuariais sem se valer da diversificação em bolsa.

Na renda fixa, a Vinci reduziu as posições e tem dado preferência à alocação em juro real mais curto, a NTN-B com vencimento entre 2022 e 2028. “Já vi gestor falando que a 2050 é boa, mas acho que só vale se o estrangeiro voltar a comprar.”

O capital externo está claramente cético com o Brasil, mas o país tem uma condição macroeconômica favorável, com baixa inflação e chances reais de o crescimento cíclico se concretizar, após a rateada dos últimos anos, diz Felipe Niemeyer, sócio responsável pela área de relações com investidores da Canvas Capital. Apesar de reconhecer o risco de execução, a sua percepção é que o governo está engajado e tem o diagnóstico claro do que precisa ser feito. Num mercado ainda sem apoio do estrangeiro, qualquer passo concreto pode se converter em fluxo novo.

“Se as coisas caminharem bem é um montante enorme de capital”, diz. “O estrangeiro quer ver as coisas mais avançadas, prefere pagar o pênalti e deixa de pegar o rali inicial para comprar com mais convicção. Se a proposta [da Previdência] passa na Câmara, esse investidor começa a ter um pouco mais de boa fé com o país.”

Para Niemeyer, o ruído em torno do senador Flávio Bolsonaro atrapalha, mas a sua impressão é que o problema não deve cair no colo do Planalto. O filho mais velho do presidente, Jair Bolsonaro, é alvo de apuração do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por movimentações financeiras consideradas atípicas.

“O principal está dado: na articulação do quanto se consegue passar [da reforma da Previdência]”, diz. “Com o dinheiro de fora, o rali pode ser maior. Tem espaço para a bolsa subir, [a taxa de] câmbio cair e juro real longo recuar, com geração de riqueza e crescimento. Faz tempo que o Brasil não passa por um ciclo bom.”

A postura menos inclinada à alta de juros pelo Fed e a aparente disposição do presidente Donald Trump de chegar a um acordo com a China na questão comercial tiraram duas fontes de pressão do mercado brasileiro e trazem um cenário mais favorável para os ativos locais, segundo José Alberto Tovar, sócio-fundador da Truxt Investimentos.

“O Fed foi bem mais tranquilizador, deixando em aberto o que pode fazer e até a possibilidade de baixar [os juros]”, diz. O gestor acrescenta que outro recado que não estava presente no encontro anterior é que o BC americano mostrou não estar com pressa para reduzir o seu balanço e retirar liquidez do sistema financeiro. A continuidade desse movimento, segundo o gestor, depende, porém, de um encaminhamento rápido da reforma da Previdência, pauta que a seu ver será tratada como prioridade, incluindo os militares. Esse é um primeiro passo para melhorar o quadro fiscal e derrubar a desconfiança do capital estrangeiro com o Brasil. “Se aprovar, se reverte em animação para a bolsa e para os ativos brasileiros em geral.”

O executivo afirma que apesar de seguir vigilante, a gestora tem um olhar positivo para a bolsa e para os juros mais longos. Mas como a partida não está ganha, a Truxt vem se valendo de algumas proteções com opções. “Se a bolsa cair, machuca, mas fizemos algumas defesas para o caso de um grande desastre.”

O desempenho dos ativos em janeiro, no Brasil e no exterior, mostra um mundo mais propenso à tomada de risco, diz Ronaldo Guimarães, sócio-diretor do Banco Modal mais. Prova desse viés é que mesmo com o trágico rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), na semana passada, a bolsa conseguiu manter, após um primeiro soluço, o tom positivo que prevaleceu na maioria dos pregões ao longo do mês.

“Depois de muitos anos de sofrimento, de queda do PIB, o desemprego dá sinais de estabilização e o país pode entrar de fato num processo de recuperação”, diz, acrescentando que esse estado de espírito está atrelado à reforma da Previdência e outras microrreformas na sequência.

Da cena internacional, ele diz que o principal sinal para a reação dos ativos veio de integrantes do Fed, que assumiram um tom mais ameno para a correção da rota monetária, o que se confirmou com a reunião de quarta-feira. O mercado passou a embutir nos preços correção zero para as taxas referenciais americanas.

Segundo Guimarães, ao pesar no lado mais ‘dove’, há impactos positivos sobre os ativos de risco de uma maneira geral, e em emergentes em particular. Fundos de ações no Brasil e Estados Unidos, multimercados macro e carteiras de renda fixa e atreladas ao IMA-B5+ tendem a ser beneficiados.

30.jan.2019
É hora de investir na bolsa? – MyNews / Youtube, 24 de janeiro de 2019

 

30.nov.2018
Siga fundos de pensão para ver a ‘virada’ das ações, diz Truxt – Bloomberg/UOL, 30 de novembro de 2018

Os fundos de pensão brasileiros vão liderar o movimento em direção ao mercado de ações no ano que vem, desde que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, ofereça políticas econômicas destinadas a sustentar as contas fiscais do país.

Essa é a visão da Truxt Investimentos, um fundo de hedge do Rio de Janeiro que dobrou seus ativos sob gestão nos últimos 12 meses para R$ 9,3 bi. A empresa deixou dois de seus cinco fundos abertos a novos investidores estrangeiros que podem acompanhar os grandes players locais, à medida que ganharem mais confiança no Brasil.

“A primeira fase será de fundos de pensão brasileiros. Eles voltarão ao mercado no próximo ano”, disse Alexander Gorra, sócio-fundador da Truxt. “Vai ser uma grande mudança.”

Bolsonaro foi rápido em montar uma equipe econômica liderada pelo economista Paulo Guedes, formado pela Universidade de Chicago e que apóia privatizações e cortes nos gastos. Os investidores domésticos entraram no mercado de ações em setembro e outubro, quando Bolsonaro emergiu como o principal candidato, enquanto os estrangeiros preferiram esperar pelo progresso nas reformas econômicas.

Espera-se que os fundos de pensão brasileiros direcionem mais dinheiro para as ações, já que as taxas de juros caíram para uma baixa recorde, interrompendo um longo período de rendimentos fáceis nos títulos do governo. Mas dos R$ 811 bi administrados no final de maio os fundos tinham apenas 17% em ações, de acordo com a Abrapp, a associação de fundos de pensão. Alocação está abaixo dos 30% em 2011.

Gorra espera que alguns grandes investidores do Canadá e do Oriente Médio reajam rapidamente à melhora do sentimento no Brasil. Grandes fundos de pensão dos EUA vão querer ver mais progresso no programa econômico de Bolsonaro, assim como mais liquidez, antes de entrar.

“Os investidores estrangeiros precisam ver algo acontecer”, disse José Tovar, diretor executivo da Truxt e sócio-fundador. “O mandato de lua de mel de Bolsonaro precisa ser usado com sabedoria.”

Negociação Tática

Durante grande parte de 2018, Truxt estava fazendo muito do que Gorra chamava de “negociação tática” nos mercados de moeda local e de taxas de juros, em meio ao que era uma corrida presidencial confusa. Em seguida, os gestores de dinheiro trocaram de estratégia em setembro e começaram a aumentar a exposição às ações para mais de 65% em seu fundo Long Bias Master FIM, à medida que Bolsonaro avançava nas pesquisas eleitorais. O fundo, o maior da empresa, com cerca de R$ 2,8 bi em ativos, teve um retorno de 21% este ano, superando 94% de seus pares, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Depois que Bolsonaro venceu o segundo turno, Truxt reduziu a posição em ações para cerca de 50% para dar conta do risco de implementação de reformas e da política monetária mais apertada nos EUA. Embora a exposição do fundo às ações ainda esteja acima da média histórica, o Brasil não é “blanket buy”, disse Gorra.

O fundo de hedge se afastou de alguns dos maiores nomes produtores de commodities, como Petrobras e Vale, e está se concentrando em empresas bem posicionadas para se beneficiar da recuperação econômica no Brasil, disse Gorra. Isso inclui a Localiza, que se beneficiou de uma parceria para fornecer veículos para a gigante Uber Technologies. No varejo, a Truxt gosta de Magazine Luiza e Lojas Renner por terem negócios on-line fortes e estarem preparadas para competir com a Amazon.com, que tem se voltado fortemente para a maior economia da América Latina, disse ele.

A distribuidora de energia Cemig poderia se beneficiar do programa de privatização de Bolsonaro, bem como os ativos do Banco do Brasil.

08.nov.2018
Mais Brasil, menos Brasília – Valor, 08 de novembro de 2018

Após a vitória sobre os ingleses na Guerra da Independência, as treze ex-colônias americanas e o governo central encontravam-se endividados e perto de não conseguirem honrar seus compromissos. Como na prática conviviam treze países soberanos, havia relevante dificuldade de coordenação fiscal e comercial. No todo, tratava-se de uma grande crise fiscal. E crises fiscais são comumente precursoras de revoluções.

Naquela vez, também não foi diferente. Um novo realinhamento de forças impulsionou o redesenho do poder político. Por meio da Constituição de 1787, os EUA foram criados e o governo federal passou a deter o poder de regular o comércio, estabelecer e arrecadar tarifas de importação e exportação e se financiar por meio da emissão de dívida (artigo 1º). A fim de tornar viável o acordo, a União nacionalizou a dívida estadual. Esta foi a grande barganha fiscal na origem da Constituição.

Os “founding fathers” criaram dois tipos de reputação. Por um lado, ao honrar seus compromissos fiscais, os EUA angariavam a credibilidade necessária junto aos credores que permitiria levantar vultosos recursos em caso de necessidade. Por outro, menos nobre, estimulava a perspectiva de que, frente a novas dificuldades financeiras, o governo federal iria salvar os Estados.

Algumas décadas depois, uma parcela relevante dos Estados começou a emitir novas dívidas para financiar gastos em infraestrutura. Em 1837, uma intensa depressão econômica se iniciou e uma de suas consequências foi a dificuldade dos Estados mais endividados de honrarem seus compromissos. Novamente, a questão de socorrer os Estados se impôs.

Em um momento crucial do federalismo americano, o Congresso decidiu por não realizar um novo resgate. Entendeu-se que o primeiro resgate ocorreu devido a uma grande causa nacional, que permitiu a própria existência dos EUA. Neste novo caso, a dívida havia sido contraída para benefício local.

Como consequência, uma série de Estados deixou de honrar seus compromissos em 1842. Nos anos que se seguiram, os Estados introduziram reformas estabelecendo o equilíbrio orçamentário. Desta forma, uma nova reputação foi moldada: a União não mais resgataria os Estados. Desde então, poucos casos foram registrados de inadimplência da dívida estadual, sendo o Arkansas o último em 1933.

Desde o início da República, as particularidades do sistema federativo brasileiro criaram um campo fértil para que a União sistematicamente socorresse os Estados. Nesta direção, a Constituição de 1988 não teve como característica o desenho sustentável do pacto federativo fiscal. Tratava-se de consequência natural que, após o período de repressão, os direitos fundamentais assumissem papel preponderante na ordem de prioridades dos constituintes.

Dessa forma, apenas na década de 90, quatro renegociações de dívidas de governos subnacionais ocorreram. O socorro da União aos Estados naquele período pode ser entendido como um acordo nacional, cujo benefício para os Estados foi a redução dos custos da dívida, mas com redução da autonomia em diversas áreas. Para o país, garantiu-se a estabilização macroeconômica.

Porém, observa-se que o redesenho da relação federativa no Brasil ocorreu de forma oposta quando comparada aos EUA. Neste, priorizou-se a autonomia dos governos subnacionais. Quando um governo subnacional é visto como autônomo, credores, investidores e eleitores possuem incentivo de monitorar o desempenho fiscal. Em caso de má condução, credores exigem juros maiores, investidores retiram o capital e eleitores, o voto. Sabendo das consequências, os governos estaduais têm o incentivo de adotarem políticas sustentáveis.

No Brasil, reduziu-se a autonomia dos Estados com receio de que recursos da União fossem comprometidos em resgates futuros. A nova crise fiscal dos Estados mostra a falência desta estratégia. O problema perdura, pois a União permanece como o maior credor, os vasos comunicantes de recursos subsistem e, na ausência de mecanismos legais que facilitem a reestruturação, os Estados buscam “passar a conta para o andar de cima” por meio da força política.

O novo governo receberá diversos pedidos de socorro. Se seguir a recente lei de recuperação dos Estados, a negociação ocorrerá de forma individual e sem benefícios para o país. Simplesmente transferir-se-á recursos da União para os Estados. Porém, se a União negociar com o conjunto dos Estados, um novo redesenho federativo é possível (inclusive tributário).

“Mais Brasil, menos Brasília” não deve significar apenas uma parcela do bolo tributário maior aos Estados e municípios. Em troca de atender os pedidos de renegociação das dívidas, a União deveria repensar a federação com base no modelo americano. Isto significa, por um lado, não mais financiar os Estados, inclusive por meio de garantias e bancos públicos. Por outro, conferir-lhes liberdade ampla em questões orçamentárias, financeiras e administrativas (inclusive de pessoal) de forma que estes possam fazer os ajustes necessários por conta própria em caso de nova crise.

Neste momento, o poder de barganha está com a União.

André Senna Duarte é economista-chefe da Truxt Investimentos

 

08.out.2018
Para Tovar, da Truxt, otimismo deve ‘empolgar’ mercados nos próximos dias – Seu Dinheiro, 07 de outubro de 2018

Sócio-fundador da Truxt Investimentos acredita que bolsa deve ver alta nos próximos dias, após primeiro turno mostrar liderança forte de Bolsonaro

Diante de um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, com um resultado no primeiro turno muito favorável ao candidato do PSL, o sócio-fundador da gestora Truxt Investimentos, José Tovar, acredita que os mercados devem amanhecer bastante otimistas nesta segunda-feira (08), mantendo a “empolgação” para os próximos dias.

“Como a liderança de Bolsonaro foi arrasadora – não ganhou em primeiro turno por muito pouco –, ele vem muito forte para o segundo turno. Já o PT teve derrotas importantes no Senado e nos governos de três estados muito relevantes, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Esses acontecimentos vão animar os mercados nos próximos dias”, avalia Tovar.

Bolsonaro é lido pelo mercado como um candidato reformista e a favor de privatizações, uma vez que seu guru econômico e candidato a ministro da Fazenda é o economista liberal Paulo Guedes.

Perto do fim da apuração das urnas, Bolsonaro tinha 46% dos votos válidos, contra 29% de Haddad.

Em Minas, o petista Fernando Pimentel ficou fora do segundo turno na disputa para o governo do estado, encabeçada pelo candidato do Partido Novo, Romeu Zema, que enfrentará Antonio Anastasia, do PSDB.

As derrotas do PT no Senado também foram significativas, com Lindbergh Farias (RJ), Dilma Rousseff (MG) e Eduardo Suplicy (SP) fora da casa.

“Estou surpreso como o PT apanhou nos três principais estados. Na região mais rica do país o partido foi dizimado, sobreviveu apenas no Nordeste. Um Senado com menos PT também deixa o mercado mais otimista”, diz Tovar.

Bolsa deve ter o maior impacto

O impacto positivo deve, na opinião de José Tovar, ser maior na bolsa, que deve ver um movimento de alta pelo menos nos primeiros dias. O avanço deve ocorrer principalmente nos preços das ações das estatais, dando continuidade ao movimento ocorrido na última semana.

Ações de companhias como Petrobras e Eletrobrás vêm se beneficiando das menores chances de o PT voltar ao poder e, consequentemente, interferir na gestão das estatais. A grande diferença de votos entre Bolsonaro e Haddad no primeiro turno deve levar o mercado a entender que as chances do PT não são realmente grandes.

“O cenário é muito favorável para o Bolsonaro no segundo turno. Os preços vão refletir uma vitória dele e podem exagerar”, diz Tovar.

Para o sócio-fundador da Truxt, deve haver queda nos juros e no dólar, mas em menor intensidade. No caso dos juros futuros, o gestor acredita que a movimentação maior deve se dar na parte mais longa da curva, isto é, nos juros de mais longo prazo. “Na parte mais curta, já temos inflação batendo na meta, não vai ter tanto movimento”, diz.

Ele lembra que o investidor pessoa física deve ser cauteloso e diversificar investimentos. “Vai ter alguns dias de euforia. O investidor tem que tomar cuidado para que essa euforia não fique acima do razoável”, alerta.

Para Tovar, é importante mesclar os investimentos de liquidez imediata com outros de médio e longo prazo, como ações e NTN-B (títulos públicos atrelados à inflação) de vencimento longo.

“O cara que topa bolsa tem que ter horizonte de investimento de dois, três anos. O brasileiro tem que aprender a ter mais tolerância à volatilidade. Nada acontece no curtíssimo prazo”, diz.

PT deve se voltar mais para o centro

O sócio-fundador da Truxt acredita que, até o segundo turno, algumas mudanças na corrida eleitoral devem acontecer.

“O PT vai ter que dar uma guinada para o centro, porque esta campanha foi muito pouco vencedora, quase não foi para o segundo turno. O partido terá que rediscutir a estratégia econômica. O programa do PT é muito à esquerda, muito ruim para o lado fiscal”, opina.

Tovar frisa que o primeiro turno mostrou um grande movimento “anti-PT”. Com isso, nomes mais moderados do partido devem ganhar espaço, em detrimento de nomes mais radicais à esquerda, na tentativa de Haddad angariar votos.

Para o gestor, se o PT endereçar a questão fiscal – maior problema econômico do país hoje – com credibilidade, será “melhor para o Brasil”, pois teríamos dois candidatos com chances de serem benéficos para a economia.

“Mas, infelizmente, acho que o debate sobre economia vai continuar não acontecendo na campanha para o segundo turno. Os candidatos não vão querer tocar em temas mais amargos, como redução de gastos e reforma da previdência”, observa.

Numa eventual eleição de Bolsonaro, Tovar crê que a grande incógnita será a forma como ele negociará com o Congresso, pois não tem experiência nisso.

“Muitas lideranças ficaram de fora. Teremos um Congresso novo, com mais militares e religiosos, uma cara mais Bolsonaro, mas a dificuldade de negociar já sabíamos que ele iria ter. Mas se for uma vitória avassaladora, ele vai ter popularidade nos primeiros meses e algum poder no Congresso. Todo mundo vai querer apoiá-lo”, avalia.

Nesse sentido, Tovar acredita que Bolsonaro poderia aproveitar os primeiros meses do seu mandato para atacar pontos mais populares, como corrupção e segurança e, em paralelo, tratar questões econômicas importantes sem “apanhar tanto”.

“Se ele conseguisse manter o time econômico atual, com a liderança do Paulo Guedes, seria um show para o mercado”, completa.

22.ago.2018
‘R$ 4 não é um número cabalístico’, diz José Tovar – Jornal O Globo, 22 de agosto de 2018

Para o sócio-fundador da Truxt Investimentos, a volatilidade deve continuar até a reta final das eleições

RIO – As dificuldades enfrentadas por candidatos reformistas aumentam o incentivo a apostas contra o real, acentuando a desvalorização que vinha sendo pautada pela conjuntura internacional. Essa é a avaliação de José Alberto Tovar, sócio-fundador da Truxt Investimentos, que gere R$ 9 bilhões em seus fundos. Segundo o gestor, a volatilidade cambial deve perdurar até a reta final do pleito, que tenderia a ser definido apenas nos últimos dias.

Como o senhor avalia a escalada do dólar?

– Primeiro, é preciso levar em conta que há um pano de fundo de dólar forte no mundo todo, porque os juros americanos estão subindo e atraem capital que estava espalhado. Esse processo é mais percebido por países emergentes com fragilidades, seja em suas contas externas, seja em sua saúde fiscal, que é o caso do Brasil. Agora, estamos nos aproximando das eleições. O Brasil saiu da Copa do Mundo e entrou na corrida eleitoral. Sempre que há a percepção de que o vencedor do pleito não fará as reformas, o dólar ganha força.

É essa hoje a percepção dos investidores?

– Existe uma preocupação porque as pesquisas têm mostrado que os candidatos de plataforma reformista não estão na liderança. Os extremos estão sendo favorecidos, enquanto o centro não apresenta bons números. O dólar mais alto indica a percepção de que reformas urgentes no campo fiscal, como a da Previdência, podem ser adiadas ou serem feitas com pouca intensidade. O Brasil tem uma carga fiscal altíssima para um país emergente. Isso aumenta o incentivo à proteção entre os investidores, que já existe por si só diante de quadros eleitorais. Além disso, a diferença entre os juros dos EUA e os do Brasil é a menor que já tivemos, tornando mais barato apostar contra o real. Isso tudo eleva as pressões sobre a moeda.

Deve-se esperar maior volatilidade?

– Ela deve aumentar durante as próximas semanas, porque há muita incerteza em torno das eleições. Não sabemos ainda qual será o peso da propaganda eleitoral e temos muitos candidatos com chances de ir para o segundo turno. Além disso, o eleitor médio tem, em geral, muito pouco interesse nas eleições. Sua decisão só deve ser tomada nos últimos dias. Isso eleva as chances de termos oscilações mais intensas no câmbio.

O Banco Central deve intervir agora que o dólar ultrapassou os R$ 4?

O BC só vai intervir se achar que o mercado está disfuncional. É uma decisão dele. E ele tem mostrado que não enxerga um mercado disfuncional. É importante ter em mente que R$ 4 não é um número cabalístico. Antes estava em R$ 3,98 e agora está em R$ 4,01.

12.jun.2018
O que esses 7 fundos fizeram para não perder dinheiro no caótico mês de maio? – Infomoney, 12 de junho de 2018

Os fundos com estratégias focadas em dólar e no mercado exclusivamente internacional foram excluídos do levantamento, uma vez que o cenário foi menos desafiador com o dólar batendo recordes de alta

Weruska Goeking, 12 jun, 2018 15h22 – Atualizada em 16h10

SÃO PAULO – “Sell in may and go away” é uma frase já tradicional do mercado financeiro ao ponto de se tornar até um tanto folclórica. Ela diz respeito ao período pré-férias de verão nos Estados Unidos. Vale lembrar que uma parcela importante do mercado acionário brasileiro é de estrangeiros. Neste ano, a profecia foi realizada e tanto estrangeiros quanto brasileiros saíram vendendo suas ações na Bolsa brasileira em meio às incertezas políticas e a greve dos caminhoneiros.

O resultado foi a queda de quase 11% do Ibovespa, em seu pior resultado em três anos e meio e os fundos multimercados recuaram 2,20%, segundo o IHFA (Índice de Hedge Funds da Anbima). Mas enquanto uns choram, outros vendem lenço: 7 fundos multimercados conseguiram manter a performance positiva. 

InfoMoney foi atrás das explicações das estratégias vencedoras de cada um deles e você pode conferir tudo no programa “Top Fundos” (no player abaixo) Vale lembrar que fundos com estratégias focadas em dólar e no mercado exclusivamente internacional foram excluídos do levantamento, uma vez que o cenário foi menos desafiador com o dólar batendo recordes de alta. Foi o caso do Geo Empresas Globais, que teve ganhos de 9,28%, com diversificação tanto geográfica pelas empresas quanto cambial. 

Confira os 7 fundos multimercados que conseguiram sobreviver a maio em patamar positivo:

Fundo Retorno absoluto em maio Aplicação inicial mínima Taxa de administração
Gávea Macro 3,06% R$ 50 mil 1,98%
Truxt Macro Advisory 1,40% R$ 20 mil 1,90%
Az Quest Total Return 1,11% R$ 5 mil 2%
Absolute Hedge 0,97% R$ 5 mil 1,90%
Safari 0,94% R$ 25 mil 1,80%
RPS Total Return D30 0,83% R$ 50 mil 2%
SulAmerica Endurance 0,57% R$ 5 mil 1%

 

Gávea Investimentos: O gestor estava comprado em dólar, tomado em juros no Brasil e vendido no Ibovespa.

Truxt Investimentos: José Tovar, CEO da Truxt, conta que a equipe de gestão já observava, desde março, que o incentivo fiscal norte-americano acabaria pressionando a taxa de juros por lá e fortaleceria o dólar. Cenário complicado para os países emergentes, em especial aqueles com fragilidades adicionais, como é o caso do Brasil. As apostas já não eram otimistas desde abril, segundo Tovar.

No mês passado, o fundo estava tomado em juros com vencimento em dois e três anos, apostando na subida de juros curtos americanos. Os gestores também não apostavam que o Banco Central reduziria a Selic, na contramão de boa parte do mercado, uma vez que as moedas emergentes estavam derretendo e outros países emergentes já subiam seus juros. “Acertamos esse movimento. Fomos com opções e tomados no juro para janeiro de 2020 e passamos um tempo comprado em dólares”, explica Tovar.

 

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08.jun.2018
Desalavancagem de multimercados amplifica perdas do ‘kit Brasil’ – Valor, 08 de junho de 2018

Depois de receber uma enxurrada de recursos nos últimos dois anos, na esteira do corte de juros que levou a Selic à mínima histórica, os multimercados voltaram a encontrar uma porta estreita de saída pelas alocações no chamado “kit Brasil” – com posições que combinavam queda dos juros com a valorização do real e da bolsa. Como muitos mandatos ainda preveem volatilidade relativamente baixa, entre 2% e 4%, o que se vê agora é um movimento de desalavancagem para estancar perdas.

No conjunto, a percepção é que havia uma certa negligência com o risco eleições, com apostas que um candidato reformista deslancharia, coincidindo com uma fase em que a lua de mel com os emergentes chegou ao fim. Agora, as probabilidades foram ajustadas a um cenário que pode contemplar candidatos dos extremos, como Jair Bolsonaro ou Ciro Gomes, conforme mostrou sondagem da XP Investimentos com investidores institucionais, apontando um segundo turno entre os dois, com 48% dos entrevistados acreditando na vitória de Bolsonaro.

“A indústria de fundos estava complacente com os riscos à frente”, diz Fabiano Rios, sócio-gestor da Absolute Investimentos. “A maioria estava no mesmo lugar, e os fundos com um tamanho grande porque a indústria cresceu muito recentemente. Havia poucos com ‘call’ contrário.”

Conforme dados divulgados ontem pela Anbima, entidade que representa o mercado de capitais e de investimentos, os multimercados atraíram quase R$ 45 bilhões neste ano até maio, com o ingresso de R$ 91,3 bilhões em 12 meses.

Embora veja a bolsa barata, depois da rápida depreciação das ações, Rios acha que esse é o segmento em que os mecanismos de “stop loss” ainda não terminaram. Enquanto nos mercados de juros e câmbio há atuação coordenada do Tesouro e do BC, na bolsa não há nenhum agente que auxilie a reequilibrar os preços. A alternativa seria as próprias empresas lançarem programas de recompra.

Depois do dia de pânico vivido ontem pelo mercado, os níveis de preços do dólar e dos juros futuros estão mais razoáveis e compatíveis com o atual cenário eleitoral, considerando-se que faltam quatro meses para o pleito, diz um dos gestores mais respeitados do mercado, que falou na condição de anonimato.

“Houve uma mudança de percepção dos fundos brasileiros, que até recentemente trabalhavam com a ideia de que Geraldo Alckmin ganharia a eleição e que a economia aceleraria”, diz. “De repente, perceberam que o cenário mais possível hoje é haver segundo turno entre Bolsonaro e Ciro ou talvez alguém do PT. No meio disso ainda os juros americanos subiram e houve problemas na Argentina, na Itália, na Turquia.”

Ele cita que fundos grandes tiveram perdas e tiveram que zerar suas posições montadas para um cenário mais benigno da economia. “Isso virou uma bola de neve.” Boa parte desse movimento, na sua avaliação, já ocorreu.

Esse gestor observa que raras vezes viu o Brasil fazer preço no mercado externo como ontem. “Nunca vi uma correlação tão perfeita. Normalmente o Brasil não mexe com o mercado global, mas a bolsa americana chegou a cair 0,5% e depois voltou quando acalmou aqui. Juros americanos e moedas emergentes também reagiram ao Brasil.”

Para o gestor, o BC não deve ceder à pressão do mercado pela alta da Selic. “Pelas nossas contas, com o câmbio no atual patamar o BC está cumprindo a meta de inflação de 4,25% do ano que vem. Se câmbio subir mais, aí sim correria risco de descumprir. E não é função do BC aliviar o prejuízo do mercado”, afirmou. “Também não é função do BC servir dólar barato para ninguém.” Em relação aos juros, prossegue, já houve um aperto monetário conforme os juros futuros subiram e as taxas das NTN-Bs longas também. “O BC não precisa subir taxa porque o ajuste se deu pelo mercado.”

Com a dinâmica negativa nas últimas semanas, algumas gestoras passaram a apostar, porém, na alta da Selic, ainda que, pelo lado dos fundamentos, argumentem que a inflação baixa não justifica uma ação nesse sentido.

A Truxt Investimentos, por exemplo, no seu fundo macro passou a ter uma posição no contrato de DI com vencimento em janeiro de 2020 pró-alta da Selic, após ser uma das poucas casas a acertar a manutenção da taxa em 6,5% ao ano na reunião passada do Copom.

“O dólar não para de subir no mundo, essa não é uma dinâmica exclusiva de Brasil, mas o país tem as suas fragilidades”, diz o sócio-fundador da Truxt José Alberto Tovar, citando a debilidade fiscal, o processo eleitoral longe de emplacar um candidato reformista e revisões para um PIB menor num momento de maior aversão com emergentes.

O recente capítulo da greve dos caminhoneiros, com toda a discussão em torno do ajuste dos combustíveis, só expôs as feridas de um governo enfraquecido, que passou a ter as suas estratégias de política monetária questionadas. A disparada dos juros, o desmonte de posições na bolsa e o dólar flertando com o nível de R$ 4 são sintomas dessa combinação. “E a principal atitude do BC para defender o real em relação ao dólar é subir os juros. Não estou dizendo que vá fazer isso, mas é o que passou a ser cogitado”, diz Tovar.

Ele cita que a virada do cenário externo junto com a piora local pegou o setor de fundos alocado em posições otimistas demais para o Brasil. “Isso levou a indústria a virar o book para um cenário mais negativo. O mercado hoje está com uma dinâmica cambial perversa, perigosa.”

Após apertos monetários na Turquia e na Argentina, começa-se a especular se o BC vai fazer o mesmo, diz. “É um momento em que o mercado de juros parece disfuncional [com alta das taxas], apesar do PIB menor e da inflação sob controle, por mais que o ‘pass through’ do câmbio seja pequeno, mas país emergente normalmente defende moeda subindo juros.”

A desvalorização de moedas emergentes serviu de alerta para a Absolute enxergar os gatilhos de piora do mercado antes da onda negativa que abateu os multimercados nas últimas semanas. Uma das gestoras Top 5 do BC na previsão de juros de longo prazo, a casa passou o ano passado inteiro e o início de 2018 com posições pró-queda da Selic, mas inverteu a mão quando a boa vontade com economias em desenvolvimento ruiu.

“A gente não só zerou, como inverteu, agora tem posições tomadas [apostando na alta]”, cita Rios. A exposição em bolsa também foi zerada, bem como a pequena parcela da estratégia comprada em dólar em relação ao real. A casa mantém, ainda, uma posição relevante no cupom cambial, derivativo que expressa o juro em dólar, por entender que há uma má preficação dos juros.

“O mercado está muito assustado porque lá fora outros países subiram juros para conter o movimento de depreciação da moeda. Não descartamos que isso possa acontecer por aqui, mas a situação do Brasil é diferente”, diz. “Os núcleos [de inflação] estão nos níveis mais baixos, o crescimento da economia tem decepcionando, com revisões para baixo. Na prática, o país não vai crescer nada neste ano, praticamente só o carrego estatístico [de 2017].” A Absolute espera uma expansão do PIB entre 1% e 1,5% para este ano.

Com a disparada da volatilidade, a Pacífico saiu das posições mais estruturais e hoje tem pouco risco na carteira, segundo o sócio-gestor Eduardo de Carvalho Moreira. Até a parcela que tinha comprada em dólar em relação ao real, montada quando a relação era de R$ 3,20, foi desfeita porque com a moeda acima de R$ 3,90 o risco de manter a posição cresceu. Embora veja ressurgir discussões em torno de um aumento da taxa agora, considera que as condições inflacionárias ainda são benignas, com algum grau de manobra para o BC.

“No IPCA-15 de maio, os preços subjacentes, mais sensíveis à política monetária, variaram menos que 3%, abaixo do piso da meta; há uma espaço grande para a inflação reagir aos ‘tradables’ [bens comercializáveis internacionalmente]”, diz.

Para o gestor, a atuação do BC tem sido correta, ao suprir o mercado de câmbio, dando liquidez, sem forçar uma direção para a moeda. “O Brasil tem US$ 380 bilhões em reservas para ajudar nessas horas e permite assim que o câmbio flutue, porém, com solavancos menores”, diz.

Ele argumenta que não dá para colocar o Brasil no mesmo bolo de outros emergentes que se viram forçados a adotar um choque de juros, como a Turquia, que vinha rodando com um PIB de 7% e inflação a 12%, com a meta em 5%. “O Ilan tem uma situação muito mais confortável, tem um espaço maior para acomodar ajustes do câmbio”, diz. “O Brasil entra nessa comparação porque tem o fiscal frágil e no processo eleitoral discute quem vai ser o próximo presidente e como ele vai equacionar o buraco nas contas públicas.”

Preservar, mais do que construir, é a palavra de ordem nesses dias de disparada da volatilidade, diz o sócio-gestor da MRJ Marejo Guilherme Foureaux. “O mercado está zerando posições mais do que apostando contra [o real ou aumento de juros], porque não sabe para onde os preços vão, não dá para fazer conta”, diz.

Ele lembra que as taxas de longo prazo subiram ao nível de Dilma Rousseff na presidência, porque os gestores estão mais preocupados em evitar novas perdas. “Não faz sentido num mercado em pânico subir Selic em 0,25 ponto, o medo é haver um salto nos juros de curto prazo.”

Nesse meio tempo para proteger a carteira, Foureaux trocou alguns ativos prefixados por títulos atrelados à inflação, que oferecem um bom seguro se houver pressões sobre os preços decorrentes da desvalorização cambial. “Não é hora de tentar se posicionar para alguns cenários, é hora de se proteger das adversidades.”

22.maio.2018
Palavra do gestor – As perspectivas para a política monetária e o risco cambial – Valor, 22 de maio de 2018

Por André Duarte

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central encerrou um dos ciclos mais longos de flexibilização monetária desde o início do sistema de metas de inflação. No passado, em todos os casos, ciclos de afrouxamento monetário tiveram o início de sua reversão em menos de um ano, e assim, uma dúvida legítima é quão longo será o período de estabilidade dos juros.

Desta vez, mesmo frente à forte depreciação do real, existem bons argumentos que apontam na direção de um período extenso.

Não é difícil constatar que a economia possui elevada capacidade ociosa de fatores de produção. Uma forma de sintetizar a ociosidade na economia é através do cálculo do chamado hiato do produto, que mede a diferença entre o nível atual do PIB e o nível que poderia ser atingido caso os fatores de produção fossem plenamente empregados.

Apesar das incertezas envolvidas, calculamos que o hiato do produto se encontra em 5,5%, enquanto o próprio produto potencial expande-se a um ritmo de 2% ao ano. Assim sendo, estando correta a previsão da pesquisa Focus de crescimento de 2,5% e 3,0% em 2018 e 2019, respectivamente, a ociosidade continuará muito elevada.

Outro argumento é o impacto da reforma trabalhista. A reforma provavelmente permitirá uma taxa de desemprego mais baixa no longo prazo, havendo então maior espaço para crescimento não inflacionário no curto prazo. Por exemplo, em países com legislações trabalhistas mais flexíveis, como o Reino Unido, EUA e Austrália, a taxa de desemprego média nos últimos 20 anos foi de 5,9%, 5,8% e 5,6%, respectivamente.

Já em países com rígida legislação, como a Espanha, Itália e França, naquele período, a taxa foi de 15,9%, 9,4% e 9%, respectivamente. A Alemanha, país que introduziu entre 2003 e 2005 uma audaciosa e no tempo controversa reforma trabalhista, observou a taxa cair de 10% para 3,4% e, mesmo com baixíssimas taxas de juros, não há pressões inflacionárias relevantes até hoje.

A reorientação da política econômica também deve contribuir para um período extenso de estabilidade dos juros. Na esfera creditícia, nos últimos anos, o Estado brasileiro se utilizou de diversos instrumentos para direcionar crédito subsidiado para setores que julgasse adequado. A consequência foi o chamado efeito “meia entrada”, com a criação de um mercado de crédito dual no qual devedores escolhidos pelo rei obtêm empréstimos a taxas deprimidas, enquanto os demais, a taxas elevadas.

Neste quadro, a fim de equilibrar a oferta e a demanda de poupança escassa, a Selic precisou ficar mais elevada. Com a nova TLP e a menor participação esperada dos bancos públicos, esse efeito deve ser atenuado. Na mesma direção, o crescimento do Estado nas últimas décadas também pressionou os juros, o que deve ser parcialmente revertido em decorrência da emenda constitucional que estabeleceu um teto para o crescimento dos gastos públicos.

Ainda, não se deve perder de vista a importância da condução adequada da política monetária. Se, em um primeiro momento, críticas foram tecidas pela demora do Copom de começar o ciclo de flexibilização, bem como pela sua timidez inicial, os benefícios desta estratégia estão cada vez mais evidentes.

Com inflação baixa e difusa e expectativas de inflação ancoradas, a credibilidade recuperada da instituição apenas reforça que os juros estão baixos não por uma aposta, mas sim pelos fundamentos conjunturais e estruturais.

Neste quadro, a conjuntura econômica permite que o Banco Central mantenha a política monetária inalterada frente a um choque de oferta substancial. Elevada ociosidade, crescimento econômico modesto, reformas estruturais, baixo nível de inflação e alta credibilidade da autoridade monetária são elementos que sugerem que os efeitos de segunda ordem nos demais preços da economia devem ser bastante limitados.

Na última reunião do Copom, com juros constantes em 6,5% ao ano e dólar a R$ 3,60, o Banco Central projetou a inflação em 4,0% para 2018 e 2019, indicando inflação abaixo da meta em ambos os casos. Adicionalmente, a instituição estima em cerca de 80 pontos-base o efeito na variação anual do IPCA no primeiro ano de uma desvalorização cambial de 10% e perto de zero no segundo ano.

Dado os elementos supracitados, há risco para baixo nesta estimativa. Assim, mesmo que o câmbio deprecie de forma ainda mais relevante, chegando, por exemplo, a R$ 4,00, segue havendo espaço para acomodar o choque externo.

Desta forma, salvo um cenário adverso nas eleições que indique a não continuidade das reformas necessárias, entendemos que o período de juros estáveis deverá ser longo, provavelmente perdurando até o fim de 2019.

Ademais, visto que a decisão de manter a política monetária inalterada baseou-se em uma ponderação entre o cenário base benigno e a deterioração do balanço de riscos para a inflação, com o comitê pendendo em favor deste, em caso de melhora do ambiente externo e após as eleições, não é possível descartar até mesmo novos cortes na Selic.

André Duarte é economista da Truxt Investimentos